O semblante de surpresa com o qual encerrei a ligação causou sentimento homônimo aos que me cercavam. Antes que a especulação tomasse conta, tratei de deixar claro que estava tudo bem! “[…] Vê, estão voltando as flores […]”. Era um contato telefônico para jantar na casa de amigos queridos – desses convites que causam impacto logo de cara, como os cada vez mais retangulares que chegam e sequer cabem nos escaninhos da vida moderna, tamanho exagero de papel canson. Dessas oportunidades raras, onde se vê anfitrião na porta, recebendo um a um, sem filas de cumprimentos. Momentos singulares, quando presentes são abertos, vis a vis, comentados e agradecidos de pronto. Onde quem convida leva ao assento quem é convidado, sem risco de ser colocado em mesa de 18 lugares com quem sequer ouviu falar na vida.  Ocasiões onde se disporá da frutífera necessidade de conversar, pois a música não estará ensurdecedora, limitando o contato a risos e expressões simpáticas. Raras circunstâncias onde flores se tornam presentes; vasos estão aparentes para recebê-las; bombons são bombons e entradas são entradas mesmo, sem jamais içarem o posto de “comidinha” para uma noite inteira em sociedade. “[…] Vê, como é bonita a vida […]”. Donos da casa servindo bebidas mão a mão, sem bandeja, porque então, e afinal, voltou-se ao entendimento de que esse instrumental é de manuseio privativo de garçons, e quando na sala, tão somente para reunir outros utensílios na ponta da mesa de centro ou do aparador a esquerda da bela coleção de souvenirs que colorem a parede principal. Sim! Porque apreciar conteúdo é primeiro nas reuniões desse tipo onde a forma, frívola, é dispensável. Temporada em que voltam a cena os jogos de louças, sem o empilhamento dos pratos de buffet. Como volta a distinção de ser convidado à mesa para lugar reservado. Onde se aprecia o menu, sem a necessidade de equilibrar prato principal e sobremesa num único recipiente, porque há quantidade suficiente para todos, […] Vê, há esperança ainda […] Aquela cultura de reunir somente os 1500 amigos íntimos nos salões destinados a convenções e feiras está cada vez mais demodèe, […]Vê, as nuvens vão passando […]”  “[…] Vê, o sol iluminando por onde nós vamos indo […]”As grandes recepções voltaram! Mais seletivas do que nunca, como ou ouvidos que identificarão as aspas que compuseram esta ode ao savoir vivre e ao savoir faire.

 

About The Author

One Response

Leave a Reply

Your email address will not be published.