Quem criou o Carnaval eu não sei. Mas deveriam criar um “Nobel” pra ele, pelo conjunto da Obra. Em cadência perfeita, conseguiu criar um salvo-conduto, um indulto para ser mais preciso, capaz de “Tanto riso, oh!”; “Quanta alegria!”, no desatualizado numerário da marchinha Máscara Negra (1967), de Zé Keti, afinal, já são mais de 200 milhões de palhaços no salão.

Três dias, tecnicamente criados a partir de uma segunda, para se tornarem cinco, contados o sábado e o domingo que antecedem e, para muitos, autênticos seis, afinal, esquentar os tamborins na sexta é requisito para o “10” no quesito evolução.

Uma semana, pra você olhar, sem constrangimento, pra cabeleira do Zezé (1963), aquele criado pelo José Roberto Kelly, com a certeza de que ele é mesmo – aquilo que você desejar – sem nada ensejar homofobia. Dias para se olhar para a “Mulata Bossa Nova”, sim só vai dar ela, como na outra composição do sambista, sem qualquer indício de preconceito racial. Oportunidade, única, pra se “beber até cair”, como nas palavras de Ivan, Homero e Glauco Ferreira (1959). E, se acabar – maravilha de Carnaval – pedir um dinheiro aí, e alhures. E se não te derem, um desrespeito, tem até saída pra isso, proposta por Haroldo Lobo e Milton de Oliveira (1960). Ou não conhece o “Índio quer apito, se não der pau vai comer!”?

Carnaval é democracia, quase plena. Afinal, reúne patroa e empregada desfilando no mesmo metro quadrado, não fosse a primeira na posição de destaque, com plumas e penas originais, e a segunda no chão, com fantasia doada pela comunidade. É equidade, quase perfeita. Não fossem os muros que separam vips nos camarotes custeados pelo herário…deixa pra lá…dos anônimos que vibram das arquibancadas nos grandes setores da Marquês de Sapucaí.

Manifestação da cultura brasileira, inconteste. Saem de cena os noticiários repetitivos, tragicômicos, abrindo alas para que os músculos e a boa forma possam passar. Cultura Geral, pra quê? Basta uma consulta rápida nos apontamentos do enredo da agremiação para absorver o significado dos deuses, noções turísticas de cidades exóticas, características de movimentos culturais do País, dados biográficos de homenageados, enfim, tudo o que for necessário para mostrar que a identidade o levou a desfilar aquele enredo nos 3, 2, 1… acabou a transmissão do “ao vivo” na concentração. “Corta pro desfile”.

Se você tem predileção pelo consumo excessivo do álcool, ótimo. Se por substâncias que induzem a sentimentos difíceis de alcançar nos últimos tempos, melhor ainda. Se sonhou em viver uma vida de hotel cinco estrelas, com tudo pronto e a mão numa chamada telefônica, em intensa preparação para o único compromisso de dançar e curtir a vida, chegou a hora. Se não lhe apetece o estilo romântico, sendo daqueles que já gosta de chegar chegando, sem a obsoleta necessidade de Chiquinha Gonzaga , em “Taí. Eu fiz tudo pra você gostar de mim” (1899), não haveria outro momento. A música tá ensurdecedora e o gesto vale, enfim, mais do que mil palavras. Se, por fim, quer dias pra acordar tarde como gosta, se preparar para não fazer quase nada, porque o tempo vai dedicar espaço somente para o facebook, periscope, snapchat, instagram, etc etc etc … Visto que não dá para perder nenhum lance dos bastidores, aproveita! Carnaval, originalmente, é expressão do latim carnis levale”, “adeus à carne”, festas da Idade Média para anteceder o grande jejum, igualzinho ao que alguns dos mais 200 milhões do salão vão viver quando tudo isso passar.

Carnaval é maravilha mesmo! “Falar alto”. “Tomar direto na garrafa”. “Qualquer roupa tá ótima”. “Ninguém precisa cumprimentar ninguém”. “Comer tudo o que estiver ao alcance”. “Beber até cair”. “Tirar a camisa porque tá calor”. “Que mal tem um shortinho mostrando tudo”. “te ligo depois do feriado”. “tá liberado esse ano”. “ninguém é de ninguém”. “pra que saber o nome?”. “quanto mais, melhor”. Parece até ordem de desfile de blocos do grupo de acesso.

Pode tirar a máscara. É Carnaval!

 

Marcelo Pinheiro

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