“Senti tua falta no almoço da Virgínia!”, exclama a amiga que imediatamente recebe o prontuário. “Menina! Gripei! Espirrei, espirrei, espirrei que só faltei colocar a adenoide no lenço, de tanto assoar o nariz!”. Pior que isto, só a Cristina, que após a recuperação do furúnculo, resolveu ilustrar o autêntico parto que enfrentou para se livrar do carnegão. “E se não fosse o unguento de basilicão, querida, não estaria nem aqui pra te contar!” E observe que não estamos divulgando relatos de salas de espera de urgência e emergência médica. Estamos, acredite, falando de saletas e salões de festas, onde a desculpa, por vezes, se torna mártir da incontinência primeira de limitar-se a dizer o necessário. Entenda-se, por fim, e em definitivo, que faltar a uma recepção é tão natural quanto ir. Deixar de comparecer a um compromisso social é tão natural quanto ser o primeiro a chegar quando da confirmação da presença. E poupar o interlocutor dos detalhes, fulcralmente sórdidos, é o primeiro passo para não desagradar e, pior que isso, ser pego em contradição. Em mentira. Porque adoecer é intrínseco do organismo e da vida de qualquer pessoa. Não querer dizer sim a um convite também. Se os casamentos se desfazem em pleno altar, com sonoro “não”, imagina se existe obrigatoriedade em dizer “sim” a tudo onde seu nome for listado. Apresentar escusas é fundamental, como falamos em outra oportunidade, mas limitar-se a responder dentro do escopo é dos exercícios mais complexos e fascinantes que o ser humano pode enfrentar em nome das relações sociais. “Não posso estar com você minha querida, e por isto estou telefonando”. “Receba as nossas escusas por estar ausente a tão singelo momento da vida de vocês”. “Estou aqui te visitando dada a impossibilidade de ter vindo quando gostaria”. Tente! E se na contraposição estiver, aceite, de bom grado, sem constranger com “por quê?”, “mas como?”, “mas não tinha mesmo condições?” A verdade é primeira em qualquer tipo de relação, nas sociais, então… esteja habituado a prática e a normalidade de não ter que dar satisfação, e detalhadamente, por conta disto ou daquilo. Por certo, muitos vovôs e vovós não serão mais assassinados por uma noite. Filhos e filhas não mais terão crises de patologias que sequer desconhecem. Trabalhadores domésticos não mais serão instados a horrendas cenas da insegurança pública impedindo sua saída. Até a concessionária do seu veículo será poupada de tanta calúnia e difamação por sinistros nos automóveis que fabrica. E desculpa furada, é o que mais tem nos eventos por aí. É trânsito engarrafado para justificar atrasos. É vaga de estacionamento indisponível para estacionar o seu possante. É ferro queimando roupa pra justificar o uso do vestido velho. É até a predileção do cachorrinho por doces para justificar a marmita no sair da festa. Quando a elucubração der sinal de que vai tomar conta da sua cabeça a caminho da boca para se materializar, contenha-se! E poupe-me dos detalhes!

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